ESTIRPE ELIMINADA
por Sérgio Ricardo


Há um tipo de artista que, movido pela relação com o semelhante, empenha-se na denúncia dos males que corroem seu gueto, sua cidade, seu país ou o planeta. Rompe o casulo da própria individualidade, e liberto de seus queixumes, ou de suas conquistas estéticas, amplia o espectro de seu universo criador, desovando obras de significado abrangente. Seu dom comunicador sensibiliza seus iguais à procura de novos caminhos e novos horizontes. Nada é mais poderoso do que a arte, para abrir a cortina do entendimento. Despojados, se expõem sem medir as consequências. Propiciam uma estética diversificada, liberta das prisões esquemáticas de um determinado modismo. Apartidários ou não, agem como livres atiradores, harmonizando-se com a evocação vigente. São como afluentes que desembocam no mesmo rio a buscar o mar do bem comum, e pelo caminho vão colhendo a pedra bruta da linguagem de seu povo, para devolvê-la lapidada mais adiante, envolto na pororoca da evolução cultural de seu país. O entendimento atingido pela mágica poética reveladora de seu verbo é a grande paga de seu ofício, que o estimula a prosseguir na empreitada. Não é o artista que busca o poder, a fama, ou a fortuna. Não busca auferir. Busca doar. Não compete. Soma-se. Só em nosso país temos centenas deles. Na música, no teatro, na poesia, no cinema, em todas as artes. O chamado "cantor de protesto" é a síntese dos demais.

Este artista, imprescindível nos momentos cruciais e duros pelos quais passa seu povo é, via de regra, censurado, ou proibido, preso, ou torturado em regimes ditatoriais. No nosso continente, em vários países vitimados por cruéis ditaduras, este artista provocou a ira, quase sempre exacerbada dos governantes. Prova concreta de sua eficácia ante os desmandos e prepotências de uma deteriorada parcela que detém o poder, e que entrega seu país à ambição desenfreada de um regime que destrói os valores essenciais da dignidade humana, disseminando a fome e a miséria, a destruição do semelhante e do próprio planeta. Mazelas que se tornam o cerne dos temas das chamadas canções de protesto.
No Brasil, a última penca desses artistas surgia no fim dos anos cinquenta, com outros setores que sonhavam levar o país à sua emancipação. Perdida a batalha no golpe de 64, daí em diante permaneceu atuando, durante a ditadura, resistindo, denunciando e driblando a censura, até quedar-se vencida pela repressão, que amordaçou-lhe a boca.

Finalmente, na abertura política, quando se supunha passada a tormenta, ele fosse voltar enaltecido, reconhecido e aclamado, livre da mordaça, em seu lugar surgia a moda nova de um rosário de futilidades. Endossada pela engrenagem, que manipulando o destino da cultura, visava o lucro e apagar da memória da população a sua verdadeira história. Assassinatos, torturas, prisões, exílios, todo e qualquer ato de resistência havidos nos negros tempos, passaram a ser assuntos tão indigestos, que automaticamente foram atirados no esquecimento. Poucos e renitentes focos de resistência tentam ainda hoje manter viva a memória e, a duras penas, conseguem sucesso em uma ou outra reivindicação. Aquele artista que arriscou a vida à causa, terá que contentar-se com os que o abordam, agradecidos pelo enriquecimento de sua formação, influenciados por suas canções. Uns conseguem adaptar-se aos novos tempos e dar a volta por cima, retomando seu caminho, ou recriando novos afluentes ao passar o bastão às novas gerações. Outros contentam-se com o orgulho de seu passado atuante. Não carregam mágoas. Cumpriram seu papel e mesmo enfrentando as dificuldades decorrentes, nada cobram pela falta do reconhecimento. A mais chocante das críticas é a atribuição endossada pelos puristas, de que a queda desses artistas deveu-se à sua desimportância estética e não à prepotência do poder. Querem tapar o sol com a peneira, ou não entenderam nada. É comum pular-se da bossa nova à tropicália como se nada de importante houvesse acontecido entre os dois movimentos. Ficou por isso mesmo, porque ninguém foi cobrar seu lugar na história. Nomes como Sydnei Miller, Taiguara, Theo de Barros, Chico de Assis, Marília Medalha, Torquato Neto, João do Vale, Guerra Peixe e tantos outros, além dos que alcançaram maior notoriedade, mas de cujas obras não se dá o relevo que merecem. Especificamente aquelas obras, cuja estética vinha impregnada de uma evolução de nossa linguagem, dando prosseguimento ao processo cultural responsável pela fisionomia do país. Como as de Vandré, Chico Buarque, Paulinho Pinheiro, Baden Powel, Aldir Blanc, Edu Lobo, Guarnieri, Thiago de Mello, Ferreira Gular, Drummond de Andrade, e tantos outros. Porque não tocam mais no rádio, não estão na telinha, nas telonas, com o devido destaque. A arte eliminada.

O tom aparentemente saudosista que se derrama por esta falação pode parecer superado, ultrapassado, datado. Sucede que o Brasil ainda é o mesmo. Suas queixas se agravaram, e a cada dia que passa mais se ressente da presença de arautos que denunciem, para ajudar a tirar nosso povo de sua apatia, de sua atuação atomizada por falta de um pensamento unificado no qual ele possa confiar. Está culturalmente embaralhado com a descartabilidade de um “besteirol” sem par em nossa história. Muito do que se produziu na arte eliminada é até mais atual hoje, do que eram. Muitas obras chegam a ser proféticas. Se elas estivessem tocando hoje no rádio, imagino que o povo não teria ido às urnas com a indecisão que o levou.

O sentimento impregnado naquela criação traduzia, nas entrelinhas de seus versos, e sons, um amor maior, que não cobrava nem fidelidade nem dividendos pela extensão de seu alcance. Um amor de entrega total, fosse qual fosse o risco, a resposta ou o castigo. Castigo como aquele sofrido pelo símbolo dos mártires contemporâneos dessa estirpe iluminada, que, por ordem do truculento ditador Pinochet, teve suas mãos decepadas diante de uma multidão, para que não dedilhasse mais seu instrumento. Subitamente, jorrou de suas veias o calor de seus versos, a doçura de sua voz e o sangue de seu povo. Falo do cantador chileno Victor Jara, em respeito às lágrimas que escorrem pelo rosto da memória.

Referência

Este texto foi lido por Sérgio Ricardo na abertura do espetáculo encenado no Teatro Casa Grande, em homenagem ao cantor e compositor chileno Victor Jara, no dia 30 de Setembro de 2008.