Fonte da juventude
por João Pimentel


Sérgio Ricardo regrava canções esquecidas e redescobre o amor à música pelas mãos de jovens e talentosos instrumentistas


Encastelado em seu apartamento-estúdio no Vidigal, onde mora há 40 anos — salvo uma pequena aventura de dois anos por Niterói, no começo deste século —, com uma vista deslumbrante do Oceano Atlântico, seus quadros de nus femininos e um computador (seu grande interlocutor musical), Sérgio Ricardo estava resignado a ser um grande compositor brasileiro amaldiçoado por uma atitude de mais de 40 anos.

Mas o violão quebrado no III Festival da Música Brasileira da Record, de 1967, e as polêmicas em que se envolveu com a turma da bossa nova foram deixados de lado por uma geração de jovens músicos, que abraçaram um projeto de sua filha, Marina Lutfi, de reler e rearranjar parte obscura da obra do autor de “Zelão”, “Esse mundo é meu”; de trilhas de filmes como “Deus e o diabo na terra do Sol”, e peças, como “Flicts”. “Ponto de partida” é o nome pertinente da canção que dá nome ao disco, e seus versos são precisos: “Não tenho para o ouvido somente o rumor do vento/ Tenho gemidos e preces/ Rompantes e contratempos”.

Mas essa espécie de recomeço aos 75 anos — ele até parou de fumar durante os três meses da gravação do disco — parece assustar um pouco Sérgio Ricardo, que, antes de mostrar seu disco, com previsão de lançamento para o fim de maio ou começo de junho, faz uma ressalva: — Não se assuste, não, porque ele é bem simples, mas um pouco moderno.

Essa preocupação com a forma se explica pelo fato de ele nunca ter tido um disco à altura de sua qualidade musical. E foi em uma conversa com o violonista Alain Pierre, arranjador de nove faixas do novo CD, que Sérgio disse se ressentir de um trabalho que lhe agradasse realmente.

— Não gostava dos resultados das gravações dos discos do Sérgio Ricardo. Por isso, até então não havia me aprofundado em sua obra. Até que ele confessou que nunca havia conseguido um resultado satisfatório, que sempre ficava na mão de produtores e seus discos tomavam uma cara que ele não queria. Então disse que ele faria o que quisesse, que estávamos lá para somar idéias — conta Pierre. — De cara ele me pediu muitos tambores e ousadia nas harmonias, que é a grande praia dele.

O projeto foi idealizado por Marina, que não se conformava em ver uma obra tão vigorosa como a do pai esquecida. Formada em design gráfico, ela fez um curso de produção cultural e conseguiu emplacar o projeto na Petrobras.

Antes disso, já havia apresentado Pierre, marido de uma grande amiga, ao pai. Este, por sua vez, mostrou o trabalho dos irmãos, o pianista Marcelo Caldi e o saxofonista Alexandre Caldi, dois dos melhores músicos da atualidade, arranjadores de mão cheia.

Estava sedimentada a ponte que levaria Sérgio Ricardo em direção ao que ele mais precisava: a juventude.

Filha sugeriu os jovens músicos

Pelas mãos dos três irmãos vieram o violonista e compositor Edu Krieger, o violinista francês Nicolas Krassik, o bandolinista Hamilton de Holanda, o violoncelista Iura Ranevsky, o baixista Rodrigo Villa, a cavaquinista Ignês Perdigão, o percussionista Naife Simões e outros.

— Meu pai queria chamar músicos consagrados de sua geração, como o Cristóvão Bastos. Mas ele precisava justamente desse diálogo com a juventude. Quando ele conheceu o Alain, ficou encantado. O bacana é que ambos se descobriram. Então veio o resto da galera. No fim, todos participaram de tudo. As rearmonizações são dele, mas os arranjos foram todos conversados, discutidos — conta Marina, que também é cantora e faz uma bela participação no disco, assim como a irmã, a afinada Adriana, e o irmão João, de 16 anos, já um violonista promissor.

Edu Krieger, um dos músicos convidados do projeto, fã de Sérgio Ricardo desde criança, por causa da música-tema da Emília, do “Sítio do Picapau Amarelo”, conta que ficou surpreso com a aparição de Sérgio em um show seu, na loja Modern Sound.

— Através do Marcelo e de mim ele percebeu que existia uma juventude interessada e conhecedora do seu trabalho. É possível que se sentisse esquecido — conta Krieger, responsável pelo convite ao bandolinista Hamilton de Holanda. — O Sérgio acenou com o desejo de ter o Hamilton no disco. Apesar de ter uma agenda internacional lotada, ele disse que topava na hora. Vai ser a consagração de uma obra que não teve o valor reconhecido e ficou marcada por uma cena extramusical.

Krieger lembra que Hamilton se emocionou com a participação e disse uma frase que ficou gravada em sua memória: — Ele disse que o Sérgio merecia, e que a gente tinha sempre que estar junto de pessoas assim, porque, além de um convívio enriquecedor, um dia precisaremos também de que a juventude faça isso por nós. E a música é isso mesmo. É uma linguagem que não tem barreiras.

Pérolas que saem do esquecimento

O disco traz arranjos sofisticados, sempre respeitando o canto forte de Sérgio Ricardo, mais uma qualidade que vale a visita à sua obra.

Da linhagem glauberiana, além de “Deus e o diabo” (aquela do “se entrega, Corisco...”), com um arranjo sinfônico de Alexandre Caldi, uma bela homenagem ao filme “Barravento”. Na trilha de cronista urbano de “Zelão”, propositalmente deixada de fora do disco, Sérgio apresenta “Fantasma” e “Maria do Tambá”. Tambá, explica-se, era o nome antigo da Avenida Presidente João Goulart, a principal do Vidigal, onde mora o compositor: “Pobre Maria, já não vivia/ Dividia o dia/ Como queria o Edgar/ Longe dos olhos cobiçosos da rapaziada/ Da Ladeira do Tambá”.

Dos primeiros tempos da bossa nova ele lembra “Folha de papel”, acompanhado pelo piano delicioso de Marcelo Caldi, e “Ausência de você”, do disco “A bossa romântica de Sérgio Ricardo”.

Enfim, como diz a letra de “Contra a maré”: “Quem vai para o fundo tem é que agitar o braço/ Tem é que apertar o passo/ Tem é que remar contra a maré”. E ele conseguiu um time de jovens com peito de remador.

— Eles me respeitaram muito, deram ênfase ao lado mais importante do meu trabalho, que é o lado harmônico e melódico. O piano do Caldi, o violão do Krieger, o bandolim do Hamilton foram presentes inesquecíveis que eu ganhei. E eu achava que tudo estava perdido...

Referência

publicado no jornal O Globo, capa do Segundo Caderno, em 08/04/2008.