Rio de Janeiro, 19 de abril de 2008


Caríssimo Sérgio Ricardo:


Quando Villa-Lobos foi convidado a compor a trilha sonora do filme Green Mansions, teriam perguntado a ele que tipo de música ele pretendia criar, e ele teria respondido: a única música que sei fazer é a música brasileira.

Lembrei-me dessa história ouvindo o seu excelente CD, que em boa hora resgata um repertório que é, em seu harmonioso conjunto, a comprovação de um talento musical profundamente brasileiro em sua generosa diversidade, que reflete a própria diversidade fascinante da música brasileira, com sua unidade plural, sua riqueza criativa e sua simplicidade. Lembrei-me também daquela gravação do Vinicius de seu Samba da bênção, em parceria com Baden, quando ele pede a bênção a todos os santos e orixás da música popular brasileira. Você não precisou pedir: nas músicas e nas letras, sentem-se as bênçãos dos ventos, do mar e dos pescadores de Caymmi, de todas as dimensões do amor cantadas por Vinicius, da pulsação rítmica viril e do lirismo melódico de Cartola, da força telúrica de Glauber Rocha – um retrato, enfim, de corpo inteiro do universo sonoro do Brasil, traçado com a personalidade própria de um verdadeiro criador e com uma musicalidade contagiante. E mais: valorizado, sem distorções modernosas, pelo sopro renovador dos jovens arranjadores e instrumentistas que promovem uma moldura expressiva e atual para a sua rara e bem timbrada voz de barítono e as belas vozes femininas de algumas faixas. Uma bela contribuição desses jovens para imprimir a esse repertório um sentido de atualidade, de modernidade e de permanência. É como se eles recuperassem aquele violão quebrado de 67 e o fizessem soar em toda sua plenitude, resgatando uma produção que certamente será, por sua qualidade musical e poética, uma nova e necessária referência para os novos talentos da MPB de agora e do futuro.



Um abraço com a admiração do
Edino Krieger

Referência

carta publicada no encarte do CD Ponto de Partida (Biscoito Fino), lançado em setembro de 2008.