A História do Disco de Bolso


Conversar com Sérgio Ricardo sobre a experiência do Disco de Bolso é algo alegre e triste. Fala com entusiasmo da importância desse projeto, do prazer de ter criado algo diferente, uma saída pro marasmo musical depois da porrada da repressão pós-AI-5, do corte geral da Censura. Apesar do clima pesado, uma nova geração artística surgia - depois daquela do Tropicalismo - mas sem encontrar espaços pra mostrar o que trazia. O DB era o novo.

E fala, amargurado, que este projeto importante teve apenas dois números. Como tantos empreendimentos de grande valor cultural no Brasil, durou pouco. Foi lançado, mas, por inúmeras razões - má administração, falta de experiência, descuido, contingências - não se consolidou.

Mais uma ótima idéia que ficou. Sérgio Ricardo explica que "essa idéia foi baseada numa necessidade de sair de um esquema que eu sentia meio emperrado, o negócio do Sistema de Comunicações, o controle da televisão. Quem fazia sucesso em festival é que acontecia. Começou a pintar muita repressão na cultura, que recebeu a navalhada do AI-5 e ficou desmembrada".

Na época, nem tinha esse nome "disco independente", era um disco que o compositor teria que dar um jeito de fazer. A gente mesmo teria que se virar; se fosse esperar, nunca aconteceria. E senti que teria que ser vendido em banca. Havia um grande público praquilo: a torcida dque havia perdido o duelo, que buscava o elo perdido. Chegamos também a uma maneira de mostrar as coisas que achei ideal: cada compacto mostraria uma música inédita de um compositor conhecido, e um compositor desconhecido de grande talento. Daí o grande caráter desbravador do Disco de Bolso. Era uma coisa jornalística, informativa." Num tempo em que circulava pouca informação.

Sérgio continua: "Aí bolei esse nome: "disco de bolso". Quem primeiro iria transar isso comigo era o Zélio, irmão do Ziraldo, mas depois entrou o Ziraldo e fez pro Pasquim. O administrador do Pasquim resolveu colocar mais uma empresa, e foi feito um triângulo: a Philips ficou com a parte comercial do disco, o Pasquim com a parte comercial da revista, e eu com a produção. Luiz Lobo era o editor da revista e Prósperi fazia a sua arte-final".

Quando se comenta o sucesso do DB, Sérgio Ricardo frisa mais o seu valor histórico, do que o sucesso comercial, pois, segundo ele, os lançamentos não venderam tanto quanto se supõe pela sua fama. "Houve muito sucesso, sim, tanto que até hoje sempre é cobrado a volta do Disco de Bolso. Mas a distribuição foi uma coisa meio maluca - o que é típico do Pasquim - e poderia ter vendido mais." Parece que não se acreditava muito nas vendas, o forte da distribuição foi só pro Rio. Depois que estourou, tentaram mandar pra São Paulo, mas aí era tarde. "O show de lançamento em SP, ao invés de ser num teatro, foi numa loja de discos, negócio incrível. Não houve divulgação, não foi ‘um produto lançado no mercado’, a propaganda era mais de boca. Saiu muita coisa no Pasquim, mas tudo precário."

Sérgio fala, satisfeito: "Teve uma grande aceitação entre os próprios colegas, que sentiram uma imensa possibilidade. Eles mesmos não teriam condições de fazer isso, nem teriam outras pessoas em quem pudessem confiar esteticamente. Meu prestígio com os compositores deu uma certa força ao evento, além do caráter da revista ser do Pasquim. O Pasquim era um ótimo ponto de venda."

Mas triste: "Era uma idéia que não era pra morrer. Tinha tudo pra dar certo. Aí veio uma grande crise no Pasquim, que não teve condições de bancar o terceiro número. A sociedade resolveu dar um tempo. Eu não tinha condições de fazer isso inteiramente independente, coisa de que me arrependo até hoje. Sozinho, naquela época, era duro, ainda mais que não tenho capacidade comercial pra organizar uma empresa. Houve época em que o Pasquim quis ressucitar a idéia, mas nunca conseguiu."

Já imaginaram se tivesse dado certo? Bem, vou dar uma idéia. O terceiro disco seria - e já estava até gravado - Geraldo Vandré com Das Terras do Benvirá, e do outro lado, Elomar. Sim, o próprio. Além da volta do Vandré, na sua primeira gravação após o desterro, a descoberta do incrível cantador Elomar, que somente há uns dois ou três anos, após muita luta, está sendo mostrado pro grande público.

Depois do terceiro, viria Egberto Gismonti com uma música inédita belíssima, e do outro lado, Alceu Valença, também totalmente desconhecido. O próximo seria Gilberto Gil com o lançamento do Expresso 2222, tendo no verso Geraldo Azevedo. E aí viriam os lançamentos de Cirino, Piri Reis... Sérgio lamenta: "Daí a pouco, ia entrar Cartola! Que pena não ter gravado Cartola!"

Se tivesse continuado, teria antecipado uma série de coisas que mais tarde vieram a ser na MPB. Só de ter revelado Bosco & Blanc, Fagner & Belchior, valeu a pena. Mas quantos mais poderiam estar hoje nos empolgando? Quem sabe até aglutinasse um movimento novo, ou precipitasse já então as produções independentes?

Athayde diz que era realmente um movimento que começava. "A gente recebia fitas de todo o Brasil, com músicas ótimas. Tínhamos o apoio integral dos artistas estabelecidos, e o tesão dos artistas novos."

E Sérgio: "Sim, já estava se tornando uma vanguarda sem planfeto, sem ninguém levantando uma bandeira de sangue. Era algo independente, que não nasceu cheio de mídias."

"Mesmo não tendo seguido em frente, vale como uma busca de memória, de coisas que deveriam ter dado certo, e que foram escondidas, como as obras de Sidney Miller. Agora, não serviu apenas ao estigma do passado. Continua vivo como evento. Pode surgir hoje e ser o porta-voz de uma vanguarda da música popular, e uma plataforma de informações. Hoje também tem uma série de coisas por aí que não tem saída."

Referência

extraído do encarte do LP "MPB INDEPENDENTE", de 1982, produção do Pasquim e de Belchior.
sem referência do autor do texto.