ESSE SÉRGIO RICARDO
por Carlos Heitor Cony

Esbarro com Sérgio Ricardo num corredor do prédio onde trabalho. Estamos com pressa, mesmo assim paramos e buscamos tempo para dizer que nos gostamos.

Guardo uma velha foto, um palanque contra o regime autoritário dos militares; lá estamos Callado, Thiago de Melo, Joaquim Pedro de Andrade, Sérgio Ricardo e eu. Mandamos a brasa que podíamos. Talvez não tenha adiantado, mas fizemos nossa obrigação naquele momento.

Considero Sérgio Ricardo um dos artistas mais nobres e conscientes que o Brasil já produziu. Tem um temperamento quente, quebrou um violão num desses festivais, criou um horda de ressentidos e até mesmo de inimigos. Nada disso influi na importância artística de sua obra.

Vinculado esquematicamente à Bossa-Nova, ele supera o modismo. Aproxima-se mais do clássico: ao piano ele é soberbo. No violão, não fica atrás de Baden Powell.

O compositor é que interessa. Além dos sucessos históricos de "Zelão" e "Esse Mundo é Meu", seu grande momento foi a trilha composta para "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Experimentem ver o filme de Glauber sem a música de Sérgio Ricardo. É como ver uma catedral gótica sem agulhas, um pássaro sem asas.

A coerência artística e política de Sérgio Ricardo desagrada aos oportunistas de todos os tamanhos e feitios. Ele passa recibo, tem sangue quente, reage - é um artista de briga, embora seja um doce como pessoa.

Em torno dele foram criadas lendas, é um dos artistas brasileiros mais injustiçados. Outro dia num programa da TV cultura (programa Ensaio), ele deu um banho de musicalidade e coerência política. Ficará em nossa história como uma espécie de Qorpo Santo musical, de Aleijadinho que precisou de quase dois séculos para ser reconhecido pelos modernistas de 22. Da minha parte, sempre lhe queimei o incenso que ele merece.

Referência

publicado no jornal Folha de S. Paulo em 22/06/1997