O Coronel de Macambira
Poemas de Joaquim Cardoso
ABERTURA

Bumba! Meu Boi, bumbá!
Cavalo marinho
Vem vem que vem dançando
Bem devagarinho

Cavalo marinho
De donde é que vem
Das praias de longe,
Das terras de além?

Bumba! meu boi, bumbá!
Que vem de chegar
Cavalo marinho
Das bandas do mar.


AEROMOÇA

Pastora sou de pastores
Baliza dos ventos frios
Pastora sou de aeronaves
Farol guiando os navios

Que , aos portos de Além do Além
Levam seus porões vazios
Pastora sou de aeronaves
Baliza dos ventos frios


JARDIM DO CÉU

Jardim do céu, do céu
Rosa branca, rosa breve
Jardim de plantas de nuvens
Jardim de nuvens de neve

Asas livres, asas leves
Voando no céu distante
Asas de um homem que aprende
Liberdade a cada instante

Jardim do céu, do céu
Jardim do céu
Jardim do céu, do céu
Jardim do céu


SOLDADO

Marchando vem pela estrada
Batendo as botas reiúnas
O soldado
O soldado
O soldado da coluna

Avançando pela estrada
Sob o sol e sob as chuvas
Marchou muitas, muitas léguas
E venceu em Catanduvas

Subindo serras, descendo
Abrindo largas estradas
Nem mesmo ser reunidos
Trabalhador e soldado.


BICHEIRO

Mas é seu Tenório
Bicheiro da vila
Com seu criatório
Esperto e finório,
Trazendo seus bichos
Aí está seu Tenório!

Agora o casório
Mateus-Catirinha
- Um par de simplórios!
Não é mais ilusório…

Esperto e finório,
Trazendo seus bichos
Aí está seu Tenório!


BICHOS DA NOITES

São muitas horas da noite
São horas do bacurau
Jaguara avança dançando
Dançam caipora e babau

Au, au, au…au

Festa do medo, do espanto
De assambrações um sarau
Furando o tronco da noite
Um bico de pica-pau

Au, au, au…au

Andam feitiços no ar
De um feiticeiro marau
Mandingas e coisas feitas
Do Xangô de Nicolau

Au, au, au…au

Medo da noite escondido
Nos galhos de um pé de pau
A toda dança acompanha
Tocando o seu berimbau

Au, au, au…au

Um caçador esquecido
Que espreita de alto girau
Não vê cotia nem paca
Só vê jaguara u babau

Au, au, au,…au

Medo da noite, caveira
Na ponta de um varapau
Há um pio longo, agourento
-É mãe da lua, urutau

Au, au, au…au

junto da grande coité
onde prepara um mingau
mexe e remexe, mexendo
a sombra de galalau

Au, au, au…au

E um braço morto, invisível
Atira nagua um calhau
E as águas giram seus discos
Até um funil de um perau

Au, au, au…au

Finge que fuma e defuma
Fumando seu catimbau
Medo da noite com o rosto
Pintado de colorau

Au, au, au…au

Numa cangalha navegam
Como se fosse uma nau
E içando as velas, mortalhas
Passam jaguara e babau

Au, au, au…au

Montando um porco do mato
Como se fosse um quartau
Caipora vai perseguindo
O jacaré ururau

Au, au, au…au

Alguém soluça e lamenta
Todo esse mundo tão mau
Bicando a sombra da noite
Pinica e pinica o pau

Au, au, au…au

Alguém no rio agoniza
No rio que não dá vau
Alguém na sombra noturna
Morreu no fundo perau

Au, au, au…au


CAIU CAIU
Caiu caiu
Em terra ausente
Dos seus mais justos senhores
Terra que fugiu das mãos
Dos mais simples lavradores

Caiu
Da flor a semente
Não do fruto em noite escura
Semente, verde semente
Que um dia será madura.


COBRA

Vem o sol nascendo
Quando a morte passa

Parece dormir
Num chão de palha
Cascavel terrivel
Cascavel chocalha
Cobra salamanta!
Cobra coral!
O gado mordido
Não volta ao curral

Vem o sol nascendo
Quando a morte passa

É surucucu
Pico-de-jaca
É cobra tapete
É a jararaca
Na manhã nascente
Passa na estrada
Jararacussu
Urutu dourada
Vem o sol nascendo
Quando a morte passa


EMA

Gavião quando peneira
Peneira como urupema
Os bichos que são velozes
Não correm mais do que a ema

Correndo campos, baixos
Com matagis de jurema
Correndo o curso dos rios
Não correm mais do que a ema

Foge medroso o covarde
Antes as armas de um curema
As nuvens da tempestade
Não correm mais do que a ema.


ENGENHEIRO

Cuidado com o engenheiro
Que vem as terras medir
Ele é mais que feiticeiro
Para encantar e iludir

Seu instrumento: uma aranha
Tecendo vai os seus fios
E sempre alguém se emaranha
Nos seus desenhos vazios

Seu instrumento é roleta
De muitos mede a má sorte
Com traços de linhas retas
Separa a vida da morte


RETIRANTE

Daquele lado o que vemos
É uma figura de sombra
De gestos, cinza e silêncio
Quem de longe a vê se assombra

Por terras secas, desertas
Parece que é um retirante
Sentimos sua tristeza
Tão sem tempo e tão distante


FUI, FUI, FUI

Fui, fui, fui
Em fuga fui, fugindo fui

Cocorobó
Patamoté
Massaracá
Geremoabo

Fui, fui, fui
Em fuga fui, fugindo fui

Vasabarris
Aracati
Tapicuru
Jacuruci

Fui, fui, fui
Em fuga fui, fugindo fui.


GURIATÃ, CURIÓ

Guriatã, curió
Oh! patativa golada
Oh! Meu galo de campina
Cantando desde a alvorada

Sabiá da mata, sabiá
Sabiá gongá

Papa-capim, pintassilgo
Oh! Meu bem-te-vi passarinho
Saudando quem vai passando
Ao longe pelo caminho

Sabiá da mata, sabiá
Sabiá gongá

Oh! Minha ave araponga
Ferreiro deste sertão
Teu canto bate na serra
Responde o meu coração

Sabiá da mata, sabiá
Sabiá gongá

Cantadores do Nordeste
Cantando ao som do baião
Galopes a beira-mar
E os oito pés do quadrão

Sabiá da mata, sabiá
Sabiá gongá

Cantando vamos ao longe
Pela estrada do sertão
Cantando, vamos cantando
Salvar o boi e a nação

Sabiá da mata, sabiá
Sabiá gongá


MINHA FLOR, MINHA TERNURA

Minha flor, minha ternura
Meu jardim de malmequeres
Meu jardim de paquiviras
Teu silêncio se estendeu
Nas folhas das macambiras

Canário, canário branco
Canário branco

Teu corpo ficou ferido
Teu coração ficou preso
Nos gravatás dos espinhos
Tua voz se ttransformou
No canto de um passarinho

Canário, canário branco
Canário branco

Teu corpo se converteu
Na sombra de um ramo seco
Ramo simples de favela
Aonde rompeu as asas
A canarinha amarela

Canário, canário branco
Caneario branco

Eis a sombra que restou
Da bela fronde primeira
Quando em sombras desfolhadas
Arrastada pelo vento
Se perdeu na ribanceira

Canário, canário branco
Canário branco.


MORTE DO BOI

O meu boi morreu
Meu boi surubim
Que comprei na feira
De Belo-Jardim

Agora na vida
Que será de mim
Sem meu boi ponteiro
Meu boi surubim

Morreu, meu boi, morreu
Meu boi surubim
Sou pobre de tudo
Sou pobre de mim.


O AVIÃO

O avião, o avião, a avião caiu
Um luz no céu passar eu ví
O avião, o avião, o avião caiu
Na serra de Comunati

Ouvi passar Rasga-Mortalha
Ouvi cantar Pitiguari
O avião, o avião, o avião caiu
Na serra de Comunati.


O DOUTOR

Vem o doutor, vem trazendo
Sua seringa na mão
E às vezes, mesmo, benzendo
Quando não há salvação

Ai doutor!
Ai doutor!

Pastilhas, pós e pomadas
Emplasto, unguento e xarope
Tantas meizinhas usadas
Que a morte foge a galope

Ai doutor!
Ai doutot!

Cura os que vão pela vida
Das tripas desarranjadas
Cura a espinhela caída
A califa e o mau olhado

Ai doutor!
Ai doutor!


O BOI MORREU / TARDE VIM

O boi morreu, tarde vim

Nem mesmo pude saber
A que verdade cedeu…
-Este boi, de que capricho
de que inocência morreu?
Do sonho fiz um remédio
Que cura as dores mais fortes
Que dá consolo e esperança
Aos que adormecem na morte.
O boi morreu. Tarde vim
E não lhe pude aplicar
O meu mais certo saber:
Que é o de dar um sonho à morte
Que é o de ajudar a morrer.


PRODUTOR

Vem na frente o produtor
Logo após o economista
Mais atrás com seu tambor
O sagaz propagandista

Dizem que são justiceiros
Produtores de abundância
Na verdade são coveiros
No cemitério da infância

De tamanhos produtores
Bem se conhece o produto
Terras secas, gado morto
Gente faminta, de luto.


REVERENDO

Pelos caminhos chegando
É um padre que estou vendo
Daqui lhe faço a pergunta
A quem vem, seu reverendo?

Está de batina branca
Pois faz um calor
Tremendo
Assim repito a pergunta:
A que vem, seu reverendo?


SOU FILHO DE PERNAMBUCO

Sou filho de Pernambuco
Lá das bandas de Carpina
Da cana gosto do suco
Que tem nome Monjopira
Eduquei-me no trabuco
Matar gente é minha sina

Nasci também nesta terra
Que o sol castiga e descora
- terra de joaquim Nabuco -
Homem de bem, homem certo
Que era muito diferente
Desses "nabucos" de agora

Há muito que por aqui
Um sanguesinho não há
Mas pelo jeito parace
Que as coisas vão melhorar
Pois seu coronel Nonô
Acaba de me chamar

Há de ser briga valente
Com muito sangue de gente
Vai correr sangue de boi
E ninguém há de sobrar
Pra contar como é que foi.

TEMA DO CAPITÃO

Saibam todos os presentes
Que, para aqui enviado,
No meu cavalo marinho
Sou capitão bem montado

Sou conde condecorado
Com a cruz do tempo e do ar
Capitão de Altas Milícias
Cavaleiro de Além Mar

Venho aqui pela justiça
O justo direito de dar
Venho persequir os fortes
E os fracos desagravar

Sou conde condecorado
Senhor de grande solar
Comigo trago mandato
De tudo remediar

Sou conde condecorado
Com a cruz do Tempo e do Ar
Sou comandante das nuvens
Errante no pelejar.


TEMA DO VALENTÃO

Quem é este que vem aí
Mais forte que um arsenal?
Mais perverso que valente
Mais frio do que um punhal?

Vem pela sombra do mato
Tocaia encruzilhada:
E a morte ronda os caminhos
Até o raiar da madrugada