Ponto de Partida
Sérgio Ricardo
Não tenho para a cabeça
Somente o verso brejeiro,
Rimo no chão da senzala
Quilombo com cativeiro

Não tenho para o coração
Somente o ar da montanha
Tenho a planície espinheira
Com mãos de sangue e façanha

Não tenho para o ouvido
Somente o rumor do vento
Tenho gemidos e prece,
Rompantes e contratempos

Tenho para minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida

Não tenho para o meu olho
Apenas o sol nascente,
Tenho a mim mesmo no espelho
Dos olhos de toda gente

Não tenho para o meu nariz
Somente incenso ou aroma
Tenho este mundo matadouro
De peixe, boi, ave e homem

Não tenho pra minha boca
Sagrados pães tão somente
Tenho vogal, consoante
Uma palavra entre dente

Tenho para minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida

Não tenho para o meu braço
Apenas o corpo amado
E assim sendo o descruzo
Na rédea, no remo e no fardo

Não tenho para a minha mão
Somente acenos e palmas
Tenho gatilhos e tambores
Teclados, cordas e calos

Não tenho para o meu pé
Somente o rumo traçado
Tenho improviso no passo
E caminho pra todo lado.

Tenho para minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida

Discos

2008_Ponto de Partida